Antes de mais, o post acabou por ficar *mesmo* muito grande por isso tentei organizá-lo e fazer uma distinção mais clara por pontos, por assuntos e com negritos, para facilitar a leitura
O professor Joaquim Sá, da UMinho lança o desafio-questão (na verdade, uma série delas), em resposta a um post meu:
«O que são hoje as Associações Académicas?
Em tempos idos as Associações Académicas eram independentes de qualquer poder, tinham uma ligação forte e genuína com a massa estudantil, eram verdadeiras escolas de formação cívica e democrática.
E hoje o que são?
O que é a AAUM?
É realmente representativa dos estudantes?
Os jogos de poder em que se envolve regularmente tem a ver com os interesses dos estudantes»
1.
A taxa de abstenção das últimas eleições para a AAUM parece-me um bom ponto de partida. 85% e um presidente, candidato único e a renovar o mandato, satisfeito com esses números (não tenho uma ideia exacta, mas estudarão 15000 alunos na UMinho?). As conclusões imediatas são o total alheamento dos estudantes. Mas quais as causas?
- Será desinteresse? Em parte.
- Será pela falta de oposição? É uma hipótese, apesar de isso me parecer uma consequência e não uma causa.
- Será por a face visível da AAUM ser a(s) “Gata(s)”? Vísivel, porque também existe uma face invisível a que a Vanessa aqui se refere.
- Será pela continuidade do mesmo grupo de pessoas à frente da AAUM, mais do que a mera falta de oposição? E porque é que não há oposição?
- Será por, apesar de tal afectação ser legalmente proibida, existir uma espécie de consórcio entre os vários partidos do centro-esquerda à direita? Saltam à vista figuras associadas directa ou indirectamente às Jotas. Saltam também à vista os “padrinhos” das associações (não sei quem é actualmente, mas à alguns anos atrás era o Marques Mendes).
- Será por os dirigentes máximos serem aqueles que se arrastam no curso ou se deixam arrastar, de propósito, para poderem “assaltar” essa posição de destaque? E assaltar será um exagero, pelos últimos largos anos, a AAUM tem sido praticamente uma monarquia: uma sucessão dinástica (a direcção actual é a “continuidade” desde 2001).
Não tenho respostas definitivas mas parecem-me todos factores determinantes.
Parece-me que neste último ano já nem os tais jogos de poder terão existido, pois parece haver um consenso entre as jotinhas todas de que assim se arranjam panelas para todos e todos têm “direito” ao seu mini-trampolim para a política dos mais crescidos. O contraste com o que se passa anualmente na “luta” pela associação, por exemplo, da FEUP é gritante. Não tem comparação possível.
Nota: aqui refiro-me várias vezes aos “jotinhas” e corro o sério risco de estar a generalizar e a ser injusto com alguns/muitos que façam parte da AAUM, mas “eles andem aí”… e o barrete há-de lhes servir. Os outros que me perdoem.
2.
Mas que dizer da inexistência de uma voz una, pelo menos em questões-causas essenciais, entre as várias associações académicas/de estudantes?
- Bolonha (a aplicação em concreto) teria sido um bom – talvez o melhor – pretexto.
- As propinas teriam sido um bom pretexto.
- O desinvestimento directo no Ensino Superior teria sido um bom pretexto – que conduz até ao risco da insuficiência de remunerações.
- A construção de estruturas supérfulas, ao mesmo tempo que esse desinvestimento e aumento das propinas acontecia, – como o tal campinho de golfe em Azurém -, teria sido um bom pretexto.
- O RJIES
E muito mais haveria por onde se pegar. No mínimo, exigia-se que cada uma dessas causas tivesse tido uma resposta ao nível da que a antiga direcção do “Acadé.ico” teve quando esta foi demitida pela direcção da AAUM – decisão mais tarde considerada ilegal pelo conselho fiscal – e que acabou por gerar um protesto com alguma visibilidade. Pelo menos, porque até nem foi assim algo de extraordinária. Mas algo daquela dimensão já seria agradável. Nada se faz, nem na UMinho, nem nas outros universidades, nada digno de registo. Já à uma data de anos.
E falando em pequenas coisas nas quais também denota a sua inércia:
- Recentemente a AAUM foi capaz de fazer pressão para que, pelo menos neste ano, fosse ainda possível fazer melhorias a cadeiras realizadas no mesmo ano. Mas só avançou nesse sentido após uma pressão intensa de representantes do curso de Direito – alunos e docentes.
Coisas simples. Com impacto. Que nem envolvem grandes protestos, grandes causas. Coisas que mudariam bastante a vida dos estudantes. Coisas no interesse dos estudantes. Coisas não no interesse de uma inc
rível minoria que vai à Gata na Praia (e que apesar de já montarem tenda para se inscrever, tal apenas sucede por as inscrições seram limitadas); mas no interesse dos que estudam – e porque quem vai à Gata na Praia também estuda, não estou a fazer nenhum juízo de valor com esta referência.
Há que estabelecer prioridades.
A da AAUM é claramente: o “Enterro”, a “Gata na Praia”, a “Semana da Euforia” ou a “Latada” – as festividades. E respondendo directamente a uma das perguntas do professor: Não, é evidente que a AAUM não prossegue os interesses maiores dos estudantes.
3.
Mas falta fazer referência a um ponto que considero essencial e que está a mudar o status quo para um status bem pior. Bolonha.
Claro que, quanto às intenções, Bolonha é muito bonito.
Aquilo a que me quero referir é às consequências de Bolonha em relação ao associativismo (ideia que já tinha lançado neste post sobre Bolonha e o impacto nas férias dos estudantes).
Notam-se muito menos iniciativas neste ano que ainda vai a meio. Não da AAUM, essa continua sensivelmente na mesma. É o “pequeno” associativismo – quer na forma de núcleos, quer na forma de associações de estudantes de cada curso – que está a pagar. Quando realizar iniciativas? Quando arranjar tempo para as organizar, fazer os convites, publicitar? Quando é que as pessoas que não as organizam têm disponibilidade para as frequentar?
Um exemplo do antes e depois:
Mesmo a AEDUM, a associação de estudantes de Direito, que até é bastante numerosa, acabou por realizar apenas dois dias de conferências (quando costumava realizar três) e este ano optou por temas que interessam única e exclusivamente alunos e juristas (quando havia uma tradição por temas mais abertos) e das 8 pessoas que nelas participaram (incluindo moderadores) 4 estavam ligados à escola e uma das outras 4 era familiar de uma das pessoas que faz parte da organização. Não que tenham tido uma fraca adesão, nem que tenham sido um insucesso, mas antes de Bolonha não era assim as pessoas da Escola geralmente eram convidadas para moderar e procurava-se convidar, sempre que possível, pessoas de fora.
A ELSA, a outra associação de Direito até terá sido a responsável por uma das conferências mais célebres da UMinho, ao ter “provocado” a presença de dezenas de agentes do corpo de intervenção da GNR à Universidade, por ocasião de uma conferência sobre o conflito israelo-palestiniano.
É verdade que Bolonha puxa muito mais pelos alunos. Exige frequência e acompanhamento das aulas. Exige muito mais trabalho, que apesar distribuído ao longo do ano não deixa de ser bastante pesado e bastante consumidor em termos de tempo.
Em caso de dúvidas, os donos dos bares a elas respondem.
Mas como refere o professor, esta parte também é altamente formativa. Esta parte também é Universidade. Também faz parte da formação cívica e democrática. Se “pedir” tempo/disponibilidade para de vez em quando “perder” um dia a ir a Lisboa ver um concerto ou assistir a um espectáculo é muito – só por pura sorte é que calha numa data conveniente -é demasiado; pelo menos esta parte, apesar de ser uma consequência bolonhesa menos visível e um fogo que não exige que seja apagado imediatamente pelos extintores das várias escolas, acredito que irá crescer até os outros alarmes pararem de tocar e, quando derem conta deste fogo oculto, temo que toda uma geração terá passado sem essa experiência.
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