11

Jan

Israel e os media (portugueses e não só)

Num comentário n’Avenida Central respondi o seguinte:

«É curiosa a interpretação dos factos que tem sido feita por parte dos media portugueses. Por exemplo, esse mesmo artigo do JN refere umas declarações de uma ex-juíza do TPI, actualmente representante da ONU. Se é verdade que ela refere a possibilidade de crimes de guerra/contra a humanidade, ela, obviamente, não comete a imprudência de dizer que é Israel ou que é só Israel que os está a cometer. Pede ela, que se faça uma investigação credível e independente. No meio “comentarístico” português, até já o Daniel Oliveira parece estar a perceber que pouco ou nada realmente se sabe sobre o que se passa em Gaza . Sabe-se que têm morrido pessoas. Mas não se sabe porque morreram, como morreram e quem é realmente responsável. Não havendo relatos fiáveis, a fronteira entre a intenção de genocídio e a utilização de escudos humanos é muito ténue. Imperceptível.

Por exemplo, o caso da escola bombardeada reflecte bem essa situação. Vale zero a declaração da ONU de que investigou posteriormente se, num determinado momento, teriam lá estado ou não militantes do Hamas. Zero. É óbvio que eles não íam ficar lá à espera. É óbvio que se a ONU não sabe o que se passa nos seus próprios edifícios e tem de “investigar”, para chegar a uma qualquer conclusão, então não sabe grande coisa. A desinformação é muito bonita. Aliás, já a vimos em guerras passadas, com a diferença de, por vezes, nos ser perceptível, de imediato e não apenas num momento póstumo, que era realmente pura desinformação, como no famoso caso do Iraque e do seu ministro. A própria diferença, durante muito tempo, de tratamento noticioso entre a Europa e os EUA quanto às guerras do Afeganistão e Iraque, podendo não se considerar desinformação, mostra perfeitamente como “factos” podem ser interpretados e noticiados de maneiras diferentes.

Aqui, como já disse, pouco ou nada se sabe, para além do facto de pessoas aparecerem mortas. Certo é que os meios de comunicação social conseguem chegar a conclusões. Conclusões santificadoras, como se houvesse um lado bom e um lado mau. Se um extraterrestre chegasse hoje à Terra e lê-se os jornais, perceberia, através de notícias, como esta do JN, como em muitas outras, que o Hamas é uma virgem inocente. Ora eu sei que isso não é verdade, como sei que Israel também não o é. É uma triste figura a que tem feito a comunicação social. O facto de Israel não abrir as portas à entrada dos jornalistas, só por si, suspeito que seja motivadora desta tendência interpretativa.»

10

Jan

The CNN Strategy

Tenho defendido, quanto à guerra Israel-Hamas, que existe muito pouca informação credível, apenas contra-informação, apesar de muita gente, mais ou menos proeminente, tomar como verdade muito do que se diz que os media ou os próprios Estados, de um lado ou do outro dizem que é verdade.

Certamente mais iluminados do que eu, percebem imediatamente que um dos lados está a mentir e que o outro está inevitavelmente certo. Como o fazem, para mim ainda é um mistério.

Factos são factos. Se aparecem x pessoas mortas, então é porque realmente morreram (apesar de isso nem sempre ser bem assim, mesmo com as mais reputadas agências noticiosas). Ninguém contesta isso. Mas as explicações e as causas apontadas por ambos os lados são diametralmente opostas. Ainda assim, parece que o consenso é que Israel é o culpado das baixas civis. Se há baixas que são danos colaterais de qualquer guerra, o que tem sido apontado vai muito para além disso. É impossível ignorar, apesar de muitas pessoas o fazerem, que existem relatos, sobre os mesmos factos, completamente diferentes. Que existem acusações mútuas e inconciliáveis/incompatíveis de crimes de guerra.

Nenhum dos lados será Santo, com toda a certeza. Mas já vimos isto no passado. Os media engolem o que lhes é dado a comer, sem grande critério. Inúmeras vezes foram explorados e serviram de meio exploratório das massas. Isso não é feito de forma inocente, por parte de quem os manipula e sabe manipular.

É sobre isso que escreve Alan Dershowitz, um professor de direito de Havard, no National Post, naquilo a que chama “The CNN Strategy”. Se tudo o que ele assume como facto é realmente verdade ou não, mas suspeito seriamente que exista uma enorme dose de verdade na sua teoria, quer os exemplos sejam verídicos ou não.

Mas esta “Info War” já não se limita aos media tradicionais. A Web 2.0 está aí, para o bem e para o mal, como ainda nos primeiros dias de guerra, o Wired.com referia.

A sua tese vai, aliás, no sentido do que este cartoon postado (e que posto aqui ao lado) pelo CAA no Blasfémias procura resumir.

Ainda sobre o Hamas, convém ler estes dois posts no Blasfémias, pelo CAA e pelo jcd, respectivamente (1, 2)

Um excerto do artigo do Alan Dershowitz:

«As Israel persists in its military efforts — by ground, air and sea — to protect its citizens from deadly Hamas rockets, and as protests against Israel increase around the world, the success of the abominable Hamas double war crime strategy becomes evident. The strategy is as simple as it is cynical: Provoke Israel by playing Russian roulette with its children, firing rockets at kindergartens, playgrounds and hospitals; hide behind its own civilians when firing at Israeli civilians; refuse to build bunkers for its own civilians; have TV cameras ready to transmit every image of dead Palestinians, especially children; exaggerate the number of civilians killed by including as “children” Hamas fighters who are 16 or 17 years old and as “women,” female terrorists.

Hamas itself has a name for this. They call it “the CNN strategy” (this is not to criticize CNN or any other objective news source for doing its job; it is to criticize Hamas for exploiting the freedom of press which it forbids in Gaza). The CNN strategy is working because decent people all over the world are naturally sickened by images of dead and injured children. When they see such images repeatedly flashed across TV screens, they tend to react emotionally. Rather than asking why these children are dying and who is to blame for putting them in harm’s way, average viewers, regardless of their political or ideological perspective, want to see the killing stopped. They blame those whose weapons directly caused the deaths, rather than those who provoked the violence by deliberately targeting civilians.

They forget the usual rules of morality and law. For example, when a murderer takes a hostage and fires from behind his human shield, and a policeman, in an effort to stop the shooting accidentally kills the hostage, the law of every country holds the hostage taker guilty of murder even though the policeman fired the fatal shot.

The same is true of the law of war. The use of human shields, in the way Hamas uses the civilian population of Gaza, is a war crime — as is its firing of rockets at Israeli civilians. Every human shield that is killed by Israeli self-defence measures is the responsibility of Hamas, but you wouldn’t know that from watching the media coverage.

The CNN strategy seems to work better, at least in some parts of the world, against Israel that it would against other nations. There is much more protest — and fury — directed against Israel when it inadvertently kills approximately 100 civilians in a just war of self-defence, than against Arab and Muslim nations and groups that deliberately kill far more civilians for no legitimate reason.

It isn’t the nature of the victims, since more Arabs and Muslim civilians are killed every day in Africa and the Middle East by Arab and Muslim governments and groups with little or no protests. (For example, on the first day of Israel’s ground attack, approximately 30 Palestinians, almost all Hamas combatants, were killed

[...]»

PS: Isto não é nenhuma tomada de posição a favor de Israel. Se acredito que, como o CAA também defende, Israel tinha o direito a defender-se.

Se esse direito se extende a um direito a transformar essa defesa numa acção ofensiva e de invasão? É questionável. Mas não me choca tanto como à maioria, pois a comunidade internacional tem vindo a aceitar esse tipo de acção, apesar da ocasional esquizófrenia, cujos exemplos maiores (de intolerância dessas acções recaiem, precisamente, sobre Israel.

Num sentido, temos o exemplo recente da Rússia-Geórgia ou China-Tibete. Mas mais flagrante (e no outro sentido) foi o direito de defesa permitido aos EUA (e à NATO) de atacar, invadir e montar estaleiro no Afeganistão. Em relação ao Iraque, nem foi necessário o reconhecimento de um direito de defesa, avançou-se para um ataque/defesa preventiva, invadiu-se e lá forças internacionais montaram estaleiro.

E isto só para citar exemplos do séc XXI, ao que acrescem situações não de guerra mas igualmente de particular melindre para a comunidade internacional, como o caso da independência do Kosovo, que, com certeza, não irá criar um precedente em relação a outras putativas nações/estados, prosseguindo assim esta bela esquizófrenia.

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