14

Nov

Os (potenciais) efeitos da demissão

«Manuel Alegre pôs o dedo na ferida: “Como reformar a educação, sem ou contra os professores?”, questionou o histórico deputado socialista, afirmando em voz bem alta, como é seu costume, aquilo que muitos trampolineiros do partido do Governo vão já dizendo também por aí, mas por enquanto ainda em sussurro. A crítica de Alegre é política[...]»

Como na altura aqui escrevi, a “escovadela” de que o titular da Saúde foi alvo reforçou a legitimidade da acção política de Alegre, dentro e fora do partido. Sócrates detesta as posições críticas de Alegre, embora só agora isso tenha ficado transparente.»

Corta-fitas.

Sim, é verdade que a “escovadela” produziu alguns efeitos. Mas foram efeitos algo menores, em particular, destaca-se o não fecho de uma ou outra unidade de saúde. Não houve uma única mudança, que se possa chamar de “fundamental”, na política do ministério, não obstante a mudança de ministro.

Houve sim, uma mudança de clima social e político. Tenho dúvidas de que antes e depois dessa crise, não tenham existido, ou tenham deixado de existir os problemas no INEM, de atrasos e descoordenações, por exemplo. Os media simplesmente passaram para outra e é impossível ignorar o papel determinante que os media têm no crescimento dessas crises, como se de um dia para o o outro as coisas tivessem ficado assim, como se estes mesmo media não tivessem a “responsabilidade-dever” de informar, quer seja o assunto seja mais ou menos ‘pop’. Fazer cara de espanto, como muitas vezes fazem, é pouco abonatório da classe.

Em todo o caso, tenho sérias dúvidas de que a substituição da ministra produza o mesmo efeito de alteração de clima, que termine a “crise”. Até poderia fazer com que o governo recuasse na questão da avaliação. Mas, como já tinha escrito aqui, isso vai mudar o quê, nas políticas educativas? Os alunos vão deixar de atirar ovos, porque a avaliação dos professores foi suspensa?

A avaliação é só a fachada, a ponta do icebergue. Fazer dela o que não é, tem sido responsabilidade do sindicato e também dos media, que geralmente transmitem a informação tal como é lhe é transmitida, sem nenhum critério editorial. E não é que não tenham a informação. Basta ir à rua num dia de manifestação – e eles vão – para se perceber que os professores estão a protestar contra muito mais coisas, para além da avaliação.

A suspensão da avaliação pode até mudar tudo para o sindicato – e os media provavelmente até vão anunciar o fim da crise ou whatever – mas tenho a certeza que a crise, que poderá acalmar um pouco, irá estar longe do seu fim, para os professores.

Estamos a falar de um milhão de votos. Por outras palavras: a revalidação da maioria absoluta socialista está cada vez mais nas mãos de Alegre. Basta ele querer. Ou não.

A diferença fundamental entre o caso da saúde e este caso da educação, é que aqui existe um sindicato e existe todo um grupo sócio-profissional, que, por maior que seja a ausência de uma unidade quanto a estas questões não-laborais, não deixa de tornar o caso completamente diferente. Por isso coloco sérias  dúvidas quanto a esta analogia com a saúde e o efeito social e eleitoral que esta demissão possa ter.

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